Mais de um quarto das capitais e dos estados do Brasil não oferece condições mínimas de transparência dos salários de seus funcionários públicos. É o que mostra o Índice de Transparência de Remunerações, desenvolvido pela Transparência Brasil em parceria com a República.org. No ranking, 27% das capitais e 26% dos governos das unidades federativas (estados e DF) obtiveram nota zero. Belém e Florianópolis e os estados do Rio de Janeiro e da Bahia são alguns deles.
“Transparência nas remunerações do serviço público é condição básica para o controle social do gasto público. Quando os dados não estão disponíveis de forma direta e estruturada, tornam-se praticamente inviáveis análises nacionais com comparações com todos estados e municípios, enfraquecendo a capacidade da sociedade de identificar distorções e abusos nos gastos públicos”, afirma Juliana Sakai, diretora executiva da Transparência Brasil.
Foram analisados 53 entes nacionais (26 capitais estaduais, 26 estados e o DF), que receberam pontuação entre 0 e 1. O resultado final foi obtido a partir da média harmônica de duas dimensões: a facilidade de acesso aos dados e a completude das informações fornecidas. A metodologia capta os efeitos de desequilíbrios acentuados entre as dimensões, de modo que os entes que zeraram uma delas automaticamente receberam nota zero no índice final.
Entre os resultados positivos, Vitória (ES) lidera entre as capitais, com nota 0,92, enquanto o Distrito Federal ocupa a primeira posição entre as unidades federativas, com 0,89. “A capital capixaba, inclusive, apresentou o maior nível de detalhamento de rubricas entre os entes analisados. É um exemplo a ser seguido por outras capitais e estados”, pontua Juliana.
A análise considerou contracheques de todos os meses de 2024, coletados entre agosto e outubro de 2025 em portais de transparência, portais de dados abertos e APIs, quando disponíveis para download direto. Também foram enviados pedidos de acesso a informação a todos os entes para complementar dados não disponíveis publicamente.
Extremos do ranking: principais problemas e boas práticas
Foram encontrados obstáculos à coleta de dados em portais de onze capitais e oito governos estaduais, segundo o estudo. Em 74% deles não foi possível coletar os contracheques em nenhum dos portais disponíveis, nem mesmo pela API, e, com isso, os entes receberam pontuação zero no Índice de Transparência.
As capitais com nota zero são Aracaju, Belém, Campo Grande, Florianópolis, João Pessoa, Macapá e Natal. Em alguns casos, como Florianópolis, não é possível baixar contracheques completos (apenas consultar remunerações individualmente por servidor), o que inviabiliza análises agregadas. Já em Belém, Campo Grande, Macapá e Natal, não foram disponibilizados dados completos nem nos portais nem em resposta a pedidos via Lei de Acesso a Informação.
Entre os governos estaduais, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe, Tocantins e Mato Grosso tiveram nota zero. No caso do Rio de Janeiro, só é possível consultar o contracheque de um servidor por vez, mediante fornecimento do nome e CPF deste, o que impede a análise ampla dos gastos com pessoal. Já Mato Grosso chegou a apresentar dados com bom nível de detalhamento quando acionado via LAI, mas zerou o índice por não disponibilizar essas informações de forma direta nos portais.
De forma geral, os piores resultados estão associados à ausência de contracheques unificados para download, à exigência de filtros que impedem a obtenção de bases completas e à publicação de dados incompletos ou em formatos que dificultam a análise. Também foram identificadas falhas como ausência de informações cadastrais dos servidores e agregação de diferentes verbas em uma única coluna, o que impede identificar a composição da remuneração.
Já entre os melhores colocados, o desempenho está associado à publicação de contracheques em formato aberto, estruturado e com detalhamento por rubrica. O modelo adotado pela Prefeitura de Vitória apresenta colunas específicas para diferentes tipos de benefícios, adicionais e descontos, permitindo identificar com precisão a composição da remuneração de cada servidor.
Diferenças entre as dimensões também impactaram o resultado. Em muitos casos, entes com boa pontuação em facilidade de acesso tiveram desempenho inferior na completude das informações, e vice-versa, o que reduziu a nota final.
