11/09/2003
Hoje fala-se muito em ética. Na verdade, quando se referem à ética as pessoas normalmente estão pensando em moral. Não usam essa palavra porque, por algum motivo politicamente correto, “ética” parece mais maneiro. Esse é um fenômeno tipicamente brasileiro: em vez de fome, fala-se em “desnutrição”. É como sabonete. Sabonete nunca tem cheiro, tem “fragrância”. Agrotóxico é “defensivo agrícola”. O Ministério da Guerra virou Ministério da Defesa. Sonegar impostos é “elidir”. Nisso, aliás, o presidente Lula tem razão. Já imaginaram um programa chamado “Desnutrição Zero”?
Mas divago. Voltemos à moral. Quando o assunto vem à baila, imediatamente passa-se a falar sobre valores individuais. De acordo com esse ponto de vista, a espoliação de pessoas destituídas de poder por aquelas detentoras de poder, o descumprimento de normas, os atos criminosos de maneira geral, decorreriam de inclinações pessoais. A partir daí nasce a idéia de que se poderia reduzir o abuso de poder por meio de processos educacionais.
Submeto que há um equívoco de base nisso tudo. Moral não é questão abstrata, não se referindo a valores. Moral é comportamento. Assim, o que importa não é o que as pessoas pensam no seu íntimo (e apregoam conforme a conveniência política ou econômica), mas o que efetivamente fazem. E o que as pessoas efetivamente fazem no espaço público depende da normatização do
Estado, através das leis, e dos costumes, por sua vez aprendidos no dia-a-dia pela exposição ao meio ambiente. O enforcement, tanto das leis quanto dos costumes, é o aspecto fundamental. Se o cumprimento das leis não é efetivamente garantido numa sociedade, não há cursinho de ética capaz de suplantar a debilidade de controles quando se trata de agir no mundo real. Se os costumes de um ambiente são tais que se admite que as pessoas mintam, enganem, se aproveitem do próximo, se apoderem das idéias alheias, parem em fila dupla na porta da escola, etc. etc. ao longo da lista infinita de situações do cotidiano, grandes e pequenas, tudo isso com a mais total impunidade social, é isso o que é “ensinado”. Se esse ensino é acompanhado da lição de que há benefícios mercadológicos em adotar-se um certo discurso, independentemente das práticas efetivas, então a cama está feita.
Não poderia haver melhor demonstração de que há algo de muito errado com tudo isso do que no fato de que não há lugar na economia para nenhuma espécie de fator “ético”. Empresas agem num certo mercado conforme a normatização e o enforcement, reagindo a partir de informações advindas de duas origens: do comportamento observado no ambiente, incluindo-senaturalmente a concorrência, e de seus próprios processos internos. Não passa pela cabeça de nenhum economista incluir na modelação de um processo decisório desse tipo algum fator “ético” subjetivo, que por definição não é mensurável. A “ética” entra no cálculo indiretamente, a partir de avaliações sobre quanto a decisão do consumidor é vulnerável à propaganda da “ética”. Mas isso nada tem a ver com o comportamento moral dos funcionários das empresas, os quais continuarão a descumprir quantas leis e preceitos abstratamente “éticos” quanto lhes for permitido descumprir.
É por isso que toda essa discussão tende a se concentrar na propaganda. Significaria tudo isso que seria inútil expor executivos ou futuros executivos a discussões sobre moral? Não. É preciso falar sobre as coisas, pois o entendimento vem da discussão e da exposição das questões ao ar livre. O que significa é que não se pode imaginar que isso bastaria.



